Do Campo à Liderança:
A Nova Era da Mulher no
Agronegócio
Durante muito tempo, a imagem do agronegócio foi predominantemente masculina. Embora as mulheres sempre estivessem presentes — seja na gestão doméstica, no apoio operacional ou na sucessão familiar — seu trabalho permanecia invisibilizado.
Hoje, esse cenário mudou de forma significativa. A presença feminina no campo não é apenas um slogan motivacional, mas uma realidade estatística, econômica e social que está transformando o setor mais estratégico da economia.
1. O Cenário Atual: Dados e Visibilidade
Pesquisas recentes mostram que a participação feminina em cargos de gestão nas propriedades rurais triplicou nas últimas décadas. E não se trata apenas de sucessoras assumindo o legado familiar, mas de profissionais qualificadas — engenheiras agrônomas, zootecnistas, administradoras e pesquisadoras — que lideram a revolução tecnológica no campo.
Ponto chave: A mulher deixou de ser apenas “ajudante” para se tornar decisora.
Elas estão à frente:
-
da compra de insumos,
-
da negociação de commodities,
-
da implementação de boas práticas agrícolas sustentáveis.
2. O Diferencial da Liderança Feminina
O que as mulheres trazem de único ao agronegócio? Estudos de comportamento e de mercado apontam características marcantes na gestão feminina rural:
• Foco na Sustentabilidade
Líderes mulheres tendem a adotar práticas regenerativas, com forte preocupação pelo uso responsável do solo e da água.
• Gestão Humanizada
A retenção de talentos é um desafio no campo. A gestão feminina costuma priorizar o bem-estar da equipe, comunicação transparente e ambientes colaborativos — reduzindo a rotatividade.
• Abertura à Inovação
Mulheres têm se mostrado altamente receptivas ao uso de tecnologias, desde softwares de gestão até drones e biotecnologia.
Elas buscam ferramentas que elevem a produtividade em todas as áreas da vida, afinal continuam sendo mães, esposas, irmãs, amigas e gestoras do próprio tempo.
3. Desafios que Ainda Persistem
Apesar do avanço, barreiras importantes continuam presentes:
• Credibilidade Técnica
Muitas produtoras relatam que precisam provar seu conhecimento “duas vezes” para conquistar respeito no campo.
• Acesso ao Crédito
A falta de titularidade da terra em nome das mulheres ainda dificulta o acesso a financiamentos robustos.
• Dupla Jornada
Conciliar a gestão exigente do agronegócio com as responsabilidades familiares continua sendo um desafio diário.
4. O Agora: Mulheres Que Inspiram
Em todo o mundo, mulheres têm se destacado no agronegócio. Alguns exemplos:
-
Val Giddings – Cientista agrícola e defensora da biotecnologia e práticas sustentáveis.
-
Rosalind Miller – Referência em agricultura orgânica, fundadora de uma cooperativa modelo de sustentabilidade.
-
Isabel Hoffmann – Inventora do dispositivo “Isofrut”, que analisa qualidade e maturação de frutas e vegetais, reduzindo desperdícios.
-
Jennifer Baarn – Agricultora de Gana e fundadora da WADO, organização que capacita mulheres em gestão e práticas agrícolas sustentáveis.
-
Aissa Doumara Ngatansou – Agricultora dos Camarões e líder da Réseau des Femmes Dynamiques du Cameroun, que promove igualdade de gênero no setor agrícola.
Essas e muitas outras mulheres transformam o agronegócio com inovação, liderança e impacto social.
5. O Futuro é Colaborativo
O fortalecimento da mulher no agro passa pelo associativismo e pelas redes de apoio. Movimentos como Mulheres AGRO no Mundo e congressos especializados criam espaços para troca de experiências sobre sucessão familiar, volatilidade do mercado e liderança.
O futuro do agronegócio depende da diversidade de olhares. A combinação entre tradição e força masculina, somada à visão estratégica e inovadora da mulher, cria um setor mais resiliente, lucrativo e sustentável.
Conclusão
A mulher no agronegócio não está “pedindo licença” para entrar — ela já está lá, operando máquinas, fechando contratos e alimentando o mundo.
Reconhecer e impulsionar essa liderança não é apenas uma questão de justiça social: é uma decisão de inteligência econômica.
Sofia Pires Coriel, Engª Agrónoma
Luanda, 26 de Novembro de 2025